O Valor do Empreendedorismo Social
ISCTE, 3 de Julho de 2006 Prof. Doutor José Paulo Esperança Professor Catedrático de Finanças Empreendedorismo Entre nós, a palavra empreendedorismo era quase totalmente ignorada, até há poucos anos. A universidade, a banca, o sector privado e o Estado dedicavam-lhe uma atenção muito escassa. Para Portugal, o empreendedorismo é um fenómeno do novo milénio, que se desenvolve num período difícil, de fraco crescimento económico e pessimismo dos mercados de capitais de todo o Mundo. O crescimento económico devia assentar no dinamismo dos grupos económicos e das empresas – afinal o que se designa por intrapreneurship – dado que o desenvolvimento de negócios de raiz não conduziria facilmente à criação de grandes organizações. Mercados de capitais pouco desenvolvidos, com baixas expectativas de Ofertas Públicas Iniciais (admissão à cotação na Bolsa de Valores) dificultavam a criação de projectos ambiciosos e inovadores, com potencial de expansão. As novas ideias deveriam ser desenvolvidas pelas organizações já existentes e beneficiar de financiamento interno. A situação alterou-se radicalmente, existindo hoje uma convicção generalizada de que o empreendedorismo é a solução para todos os males – estagnação económica, falta de inovação, competitividade externa da economia portuguesa ou precariedade de emprego. Passou também a acreditar-se que o financiamento do empreendedorismo permitiria elevados retornos de capital, favorecendo o aparecimento de business angels e a criação de Sociedades de Capital de Risco pela generalidade dos grupos bancários activos em Portugal. Um dos factores que favoreceu o desenvolvimento da nova tendência foi o empenho mais ou menos generalizado do próprio tecido empresarial da designada economia real. Alguns grupos criaram incubadoras de novos negócios; outros favoreceram processos de spin-off em que os directores de uma área de negócio foram convertidos em empresários; finalmente, foram apoiados processos de criação de novos negócios, com ou sem participação no capital da empresa apoiante, oriundos de quadros da própria empresa ou de promotores externos. Este processo revela como o envolvimento de empresas já existentes pode ser relevante para a criação de novos negócios e a minimização do elevado risco inicial. Para além deste mecanismo, surgiram projectos novos, não alicerçados em grupos ou empresas existentes, que contribuíram para a dinamização deste processo e que poderão vir a cumprir a sua missão de criação de valor, desenvolvimento económico e até de oferta de emprego. Empreendedorismo Social No entanto, é na esfera da criação de emprego que o empreendedorismo clássico, “com fins lucrativos”, pode ser considerado mais insatisfatório. Os reduzidos recursos financeiros iniciais e a necessidade de minimização do risco levam os projectos iniciais a uma política de grande contenção de recrutamento de novos colaboradores. O auto-emprego e a multiplicação de pequenas unidades económicas podem carecer de um apoio específico, no âmbito do designado “empreendedorismo social”. Por outro lado, as empresas com fins lucrativos, estabelecidas ou emergentes, podem não cobrir todas as áreas da necessidade social, nomeadamente as ligadas ao ambiente, saúde pública, educação (alfabetização, universidades da terceira idade, etc.), saúde, particularmente das camadas mais desfavorecidas, direitos judiciais das comunidades mais desfavorecidas, criação de oportunidades de grupos mais frágeis – por motivo de doença, deficiência, tóxico-dependência, etc. Estas necessidades sociais têm dado origem ao desenvolvimento do “empreendedorismo social”, um tipo de iniciativa empresarial em que as preocupações de apoio social, mesmo não directamente lucrativas, estão presentes. Um dos grandes objectivos do empreendedorismo social é o envolvimento das comunidades locais num conjunto de actividades que melhorem o seu bem-estar e reduzam o risco de comportamentos lesivos, particularmente quando os níveis de desemprego e privação são elevados. As actividades conduzidas pelas fundações e outras estruturas com preocupações sociais são muito diversificadas. Uma lista das experiências com maior notoriedade é apresentada pela revista “The Economist”, de 25 de Fevereiro, que inclui os direitos das crianças (Índia), direitos de propriedade (Tailândia), combate à corrupção (Alemanha), sector não empresarial e energias renováveis (Brasil), saúde pública (EUA e Nigéria), emprego (EUA), ambiente (Islândia) e micro-finanças (Bangladesh). À semelhança das start-ups com fins lucrativos, muitas destas iniciativas têm uma ambição internacional desde o seu arranque, tornando-se equivalente às chamadas “born-globals”. Estas iniciativas têm vindo a multiplicar-se por todo o mundo e Portugal não é excepção. Actividades de apoio a crianças órfãs, à terceira idade e aos mais pobres, bem como iniciativas no âmbito da limpeza das praias, da saúde pública ou da busca de energias renováveis têm também um conjunto de pioneiros, por vezes quase ignorados, mas que contribuem para o envolvimento de populações e criação de valor, social e económico. Para além das organizações fortemente implantadas como as Misericórdias ou a Cruz Vermelha, são criadas quase diariamente novas organizações com preocupações semelhantes ou complementares. Produtividade e Financiamento O problema da eficiência é, naturalmente, tão importante nos empreendedores sociais como naqueles que têm objectivos de rendibilidade. O princípio da afectação de recursos escassos a necessidades ilimitadas aplica-se igualmente a este sector de actividade. A capacidade de ter modelos de gestão eficiente, com tecnologia avançada e recursos humanos qualificados é igualmente importante neste sector, cuja capacidade de atracção de talentos tem vindo a crescer. Um exemplo interessante é dado pela “Teach for América” uma organização fundada em 1989 por Wendy Kopp que recruta recém-licenciados para dedicar os seus dois primeiros anos de actividade profissional ao ensino de crianças de famílias de baixo rendimento. Até ao ano passado, esta organização seleccionou apenas 14.000 de um total de 97.000 candidatos a colaborar na sua actividade. Para muitos observadores, o problema crucial do empreendedorismo social é a permanente falta de recursos financeiros. Como sobreviver, para não falar da necessidade de competir por colaboradores qualificados com o sector privado quando os recursos são naturalmente escassos ou inexistentes? Também este problema, apesar de real, pode ser largamente ultrapassado. Não só as grandes fortunas – como foi recentemente documentado pelas iniciativas filantrópicas de Bill Gates e Warren Buffett, os dois maiores milionários do Mundo – como os cidadãos em geral sentem hoje maior impulso para contribuir para o apoio de causas sociais. É como se um fenómeno de competição pala generosidade percorresse as sociedades de forma cada vez mais intensa. Naturalmente, os novos financiadores comportam-se como os accionistas de empresas cotadas em bolsa – procurando o máximo retorno (social) por cada euro investido. Por isso as melhores experiências de captação de fundos são as mais transparentes no que respeita à afectação de recursos e à medição dos resultados. Um exemplo interessante, também referido no mesmo artigo do “The Economist”, é o da Oxfam, uma organização inglesa de enorme sucesso que divulgou um catálogo de Natal em que um donativo de 24 libras permitia comprar uma cabra para uma família africana e 720 forneciam água potável para 1000 pessoas. Este tipo de mensagem obtém um elevado reconhecimento por parte dos financiadores ou doadores de trabalho voluntário. Do mesmo modo os contribuintes milionários procuram medir o número de vidas salvas com uma campanha de prevenção da malária ou de inocentes resgatados da cadeira eléctrica após fornecimento de apoio jurídico adequado (fundação de George Soros). A Governação do Empreendedorismo Social O problema financeiro não é necessariamente o maior obstáculo ao empreendedorismo social. As organizações resultantes enfrentam problemas de organização e governação tão ou mais significativos que as empresas com fins lucrativos. Um primeiro problema resulta da maior dificuldade em medir o desempenho destas organizações, por falta de um indicador financeiro consensual. Isso pode ser uma vantagem, na perspectiva social, porque podem incorporar mais correctamente os efeitos das externalidades, positivas ou negativas, que podem criar divergências entre o valor privado e social das empresas com fins lucrativos. No entanto, a falta de um indicador claro pode levar à ineficiência e desperdício de recursos. O segundo problema resulta da dificuldade em garantir que os gestores evitam o clássico problema de agência em que podem sobrepor objectivos pessoais, incluindo remuneração elevada, directa ou em espécie, aos objectivos da organização. A eficiência das organizações sem fins lucrativos, tantas vezes caracterizadas por elevados custos administrativos, era uma das preocupações expressas por Peter Drucker. Uma terceira consiste em optimizar a entrada de dois tipos de contributos complementares mas de natureza distinta: financeiros, oriundos de contribuintes com elevados recursos e humanos, com base em trabalho voluntário que pode ser altamente qualificado. Mesmo entre os filantropos, existem problemas de conflitos entre os grandes, que podem influenciar as decisões de organizações que dependem da sua contribuição e podem ostentar o seu nome e os pequenos, dispersos, e com reduzida capacidade de influenciar o processo de decisão. Peter Drucker, o recentemente falecido guru da gestão dedicou uma vasta atenção às empresas sem fins lucrativos e aos organismos de solidariedade social, sublinhando o seu valor incalculável para a sociedade. Cabe agora às universidades, sector da economia real, sector financeiro e aos cidadãos contribuir para que o empreendedorismo social prospere e ajude a corrigir desequilíbrios e a criar valor para a sociedade.
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