Dianova: Como definiria empreendedorismo? E empreendedor?
Dr. Jaime Andrez: O empreendedorismo é uma atitude profissional que favorece a criação de novos negócios ou de valor nos negócios existentes. Em traços muito genéricos, empreendedor é aquele que, trabalhando por conta própria ou por conta de outrem, não se limita a replicar modelos de trabalho, mas empreende processos de aperfeiçoamento e de alteração de padrões; por vezes, fá-lo com algum risco que lhe permitem obter melhores resultados. Na maior parte das vezes o conceito de empreendedorismo está ligado ao de empresariado.
Dianova: Quais os obstáculos ao empreendedorismo em Portugal?
Dr. Jaime Andrez: Os principais obstáculos são culturais, têm a ver com questões de educação e de aversão ao risco, o que é agravado pela Sociedade, e as entidades de financiamento não valorizam o insucesso empreendedor como um passo do próprio sucesso final. Reconheço, no entanto, que nos últimos anos, as condições da envolvente para o empreendedorismo têm vindo a melhorar muito, mas o factor psicológico permanece: os portugueses continuam a preferir a estabilidade de um emprego a algum risco com hipóteses de maiores ganhos associados, criarem o seu próprio emprego.
E isto começa a ser um pouco anacrónico, porque o conceito de “emprego para a vida” do tempo dos nossos pais já não se aplica, a estabilidade do mundo laboral é hoje muito menor do que há vinte ou trinta anos. E, no caso dos jovens, é ainda pior, porque o trabalho precário tem vindo a aumentar.
Dianova: Mas porque persiste uma aversão ao risco e à iniciativa privada dos portugueses em geral e como fomentar a mudança de atitude?
Dr. Jaime Andrez: Tem a ver com um conjunto alargado de factores. Este fenómeno não ocorre só em Portugal, embora cá possa ocorrer com maior intensidade. O espaço europeu em que estamos inseridos caracteriza-se, ele próprio, como menos empreendedor que o espaço americano; por exemplo, quase metade dos europeus assume que não deve abrir uma empresa se houver riscos de o negócio falhar; essa percentagem reduz-se para 25% nos Estados Unidos. E claro que em todos os negócios há componente de risco.
No caso de Portugal, embora os números nem mostrem esta realidade, há factores adicionais que dificultam o empreendedorismo: uma qualificação média baixa e uma fraca capacidade financeira por parte dos potenciais empreendedores, o que dificulta o investimento em negócios.
Mas, repito, o principal problema é cultural. Por isso, eu diria que para fomentar uma mudança de atitude Portugal tem que alterar o sistema educativo e a forma como a Sociedade se posiciona relativamente aos empresários, e ainda que reduzir o estigma dos insucessos.
A motivação individual para a actividade empresarial depende também de uma série de factores práticos – a redução do tempo para a criação de uma empresa, a desburocratização de processos, a facilidade de recrutamento de pessoal qualificado e o acesso ao financiamento são alguns dos exemplos de facilitação institucional que podem fazer a diferença. Esta é uma área a que o IAPMEI tem dado bastante atenção, enquanto entidade hospedeira dos Centros de Formalidades das Empresas: há menos de uma década, criar uma empresa demorava mais de seis meses, hoje, existe a Empresa na Hora que, como o nome indica, permite criar uma empresa no espaço de uma hora.
Dianova: Como caracteriza a situação do tecido empresarial português face à UE e outras regiões economicamente mais desenvolvidas?
Dr. Jaime Andrez: Do ponto de vista da classe dimensional das empresas, a estrutura é muito idêntica, sendo normal haver um claro predomínio de microempresas. Mas temos poucas grandes empresas e não temos, mais uma vez por questões culturais, prática de cooperação ou de redimensionamento para resolver problemas resultantes da pequena dimensão. Além disso, a nossa produtividade média é ainda baixa comparativamente com os indicadores dos Quinze da Europa Comunitária, isto é, precisamos de mais trabalho para produzir a mesma riqueza. E isso torna-nos menos competitivos no plano internacional.
Dianova: Qual a relação ou de que forma influi a estabilidade política no crescimento e desenvolvimento do tecido empresarial? Que medidas devem ser implementadas para favorecer o seu florescimento?
Dr. Jaime Andrez: Os investidores são avessos a instabilidade, seja ela política ou de qualquer tipo. Por isso, a estabilidade política favorece o investimento da iniciativa privada e, por conseguinte, o desenvolvimento dos negócios e o aumento de criação de riqueza. Até porque favorece a passagem de sinais claros sobre orientações das políticas públicas, o que permite aos investidores orientarem a sua actividade para actividades onde o Estado concentra mecanismos de facilitação institucional ou apoios e subsídios.
Dianova: Face ao aumento da taxa de desemprego (actualmente nos 7,7%) com uma tendência crescente nos próximos anos face à deslocalização das empresas e à perda de competitividade portuguesa, de que forma é possível fomentar-se a criação de auto-emprego de forma sustentada?
Dr. Jaime Andrez: É verdade que as grandes empregadoras do passado, as grandes empresas, estão a libertar quadros e não a absorvê-los. Por isso, é importante que quem tem uma boa ideia de negócios e capacidade para a desenvolver considere a possibilidade de a testar no mercado. E isso deve ser ensinado nas escolas e bem visto em termos socioculturais. É importante também que a banca altere comportamentos, como parece que está a suceder, com a oferta de crédito a empresas e negócios de menor dimensão E finalmente, que os interessados se informem e aproveitem os programas de apoio oferecidos pelo Estado, como por exemplo os apoios à criação de emprego e de auto-emprego do Instituto de Emprego e Formação Profissional.
Dianova: Tendo em conta que o tecido empresarial português (e à semelhança europeia) é constituído em 98% por micro e pequenas empresas, responsáveis por 70% da produtividade e 55% dos empregos, como podem os micro-empresários fazer face à recessão económica que os atinge em particular?
Dr. Jaime Andrez: É preciso que se diga que, em momentos de recessão, as microempresas demonstram habitualmente maior flexibilidade para se adaptarem a condições adversas, até pelo facto de terem menos despesas fixas.
Habitualmente, em momentos de recessão, as empresas devem conter custos e adaptar a produção à procura, e isso é mais fácil para pequenas estruturas. Em qualquer caso, a forma de resistir à recessão é igual para todas as empresas: apostar em segmentos diferenciados, reduzir custos, aumentar a produtividade e melhorar a qualidade; para isso têm de inovar, sendo a noção de inovação muito mais extensa que a de tecnologia; inovar é, fazer melhor, de forma diferente e com valor económico. Faz-se isso no produto ou na sua apresentação; na forma como o coloca no mercado; na gestão mais eficiente das encomendas, na armazenagem, enfim, em tudo o que possa tornar a empresa mais eficiente.
Dianova: Como ultrapassar a questão da baixa escolaridade e de qualificações profissionais junto de pessoas ainda em fase activa mas que se encontram desempregadas por vontade alheia ou em situação de desfavorecimento social?
Dr. Jaime Andrez: Não apenas as pessoas desempregadas ou em situação de desfavorecimento social devem procurar melhorar as suas qualificações, mas todos nós, todos os dias, temos que assumir a necessidade de actualizarmos os nossos conhecimentos.
Claro que é mais difícil para quem tem menos escolaridade e menos hábitos de estudo, mas nesses casos é ainda mais necessário. É importante que as pessoas percebam que o esforço de voltarem a estudar pode fazer a diferença entre terem uma vida digna e produtiva ou verem todas as portas fecharem-se e serem excluídos da população que trabalha.
A formação ao longo da vida é um conceito que veio para ficar em todos os quadrantes da vida profissional. É importante que as pessoas se especializem e procurem aproveitar ao máximo as suas potencialidades. Mais uma vez, os Centros de Emprego podem ajudar, porque oferecem formação que deve ser completamente aproveitada por quem está desempregado.
Dianova: Outro factor apontado recentemente para a manutenção de desemprego é a fraca mobilidade profissional e geográfica. Por exemplo, verifica-se excesso de trabalhadores de comércio em Lisboa e carência em Bragança. Como fazer face a esta inflexibilidade?
Dr. Jaime Andrez: Isso é uma questão que tem a ver com a forma como às vezes temos a nossa vida organizada: temos casa ou apoio familiar numa determinada zona, o que torna a nossa situação mais fácil se nela permanecermos. Mas uma parte desta realidade tem a ver com falta de vontade de sair dos grandes centros. Um pouco ao contrário do que está a suceder noutros países, em que as pessoas tentam fugir das grandes cidades, para terem vidas mais sossegadas e amigáveis, em Portugal acredita-se erradamente que se vive melhor nos grandes centros. A mudança de região pode ser a solução para o desemprego e o passaporte para uma vida melhor. As regiões devem criar programas de atracção nesta matéria.
Dianova: Que programas de apoio e incentivos existem para a criação e ou desenvolvimento de Micro e PME, para além das linhas actuais de microcrédito?
Dr. Jaime Andrez: Bem, para além dos já mencionados Centros de Formalidades das Empresas, onde os novos empreendedores podem criar as suas empresas, no que respeita a apoio ao financiamento, temos o Programa Finicia, que permite o apoio a iniciativas empresariais de interesse regional e a negócios emergentes de pequena escala em fase de arranque; trata-se de facilitação do acesso ao micro-financiamento, através da prestação de garantias por Sociedades de Garantia Mútua, e ainda de acesso ao micro-capital de risco, para iniciativas vindas do mundo académico ou de iniciativas de interesse local.
Existe o Inov Jovem, que permite a integração de jovens licenciados em empresas, para além dos programas já mencionados do IEFP. Existem incentivos aos investimentos, mas deve ser dito, para não alargar expectativas, que os sistemas são bastante selectivos e concebidos para apoiar apenas os melhores projectos. Importante é, sobretudo para os novos empreendedores, mas também para as empresas já existentes, informarem-se sobre todos os serviços disponíveis no mercado. E, para isso, podem usar o site do IAPMEI, www.iapmei.pt, passe a publicidade, ou solicitar essa mesma informação nos Centros de Formalidades das Empresas, que já referi, ou na nossa Rede de Gabinetes de Empresa.